A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 06/10/2020
Ardiloso, malandro e astucioso. Esses eram alguns dos termos que caracterizavam o personagem “Zé Carioca”, criado em 1942, na busca por representatividade do povo brasileiro. Lamentavelmente, mais de 70 anos depois, o mesmos adjetivos ainda podem ser utilizados para caracterizar a sociedade, marcada pelo famoso “jeitinho brasileiro”. Nesse contexto, convém salientar que esse cenário é perpetuado não só pelo suporte histórico da cultura corruptível, mas também pela tendência natural à imoralidade.
Em primeira análise, é importante citar que a permanência do jeitinho brasileiro nos comportamentos cotidianos é alimentada pelas experiências históricas. Nesse viés, a estruturação da conduta social, baseada em uma falsa cordialidade opera a favor desse dilema no meio coletivo. Consoante isso, no período da República Velha, pela prática do jeitinho e sua hegemonia regional, os coronéis colaboravam com a manutenção das elites no poder, visto que fraudavam as eleições a partir do voto de cabresto. Tal fato, além de frustrante, revela que, historicamente, a atuação corruptível em prol do benefício próprio sistematiza as relações sociais brasileiras e coopera para que gradativamente os pilares sociais sejam cimentados em políticas corruptas e de cunho interesseiro.
Em segundo plano, a propensão ao individualismo também é contraproducente à superação da problemática no país. Por essa ótica, de acordo com dados veiculados pela revista Exame, 81% dos entrevistados pelo Índice de de Confiança na Justiça (ICJ Brasil), afirmaram que, sempre que possível, escolhem “dar um jeitinho” para resolver as aversões do dia a dia em oposição a seguir a lei. Sob essa ótica, é indiscutível que essa tendência, somada à prática paulatina de pequenas transgressões como, furar filas e estacionar em vagas restritas, proporciona a transformação do jeitinho brasileiro em um estilo de vida. Logo, esse exercício permite que as infrações sejam banalizadas e reproduzidas mecanicamente, além de condescender com a persistência da cultura venal na sociedade.
A partir dos fatos supracitados, faz-se necessário mitigar esse comportamento social. Desse modo, o Ministério da Educação, dirigente das instituições de ensino, deve inserir na grade curricular das escolas uma disciplina com aplicabilidade educacional voltada ao combate da estruturação corrompível da sociedade brasileira. Essa matéria deve contar com a abordagem das áreas de ética e sociologia, fundamentadas no estudo de casos históricos do jeitinho e suas consequências no meio. Além disso, o trabalho voluntário, a partir de palestras abertas deve ser incentivado a toda comunidade com o intuito de incitar e empatia e minimizar o individualismo. Assim, com tais medidas, em um futuro próximo, Zé carioca será apenas um personagem fictício e o imbróglio social, corrigido.