A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 06/07/2020

O “jeitinho brasileiro” é um nome dado à atitudes incorretas, ilegais ou não, em vários níveis de gravidade, pautadas por uma linha de pensamento que, em prol do benefício próprio, releva ou apoia tais atos, persistentes no Brasil. Tal “jeitinho” não é recente no cenário nacional: segundo fontes históricas, já no período colonial, eram muitos os casos de enriquecimento ilícito, nepotismo e abuso de autoridade - marcas de um sistema frágil e corrupto. Tais traços históricos em nossa cultura são fortalecidos pela impunidade dos delinquentes, e causam prejuízos à toda a sociedade.

Nesse cenário, recentemente um episódio teve muita repercussão nas redes sociais: durante a crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus, foi recomendado o isolamento social e saídas apenas para atividades essenciais. Contudo, um grupo de blogueiros deu uma grande festa, alegando cumprimento dos cuidados necessários, pois só entrava quem testasse “negativo” ao teste rápido realizado na entrada, ainda que seja falho. Tal atitude enquadra-se completamente nesse traço social, marcado pela quebra de regras para benefício individual. Desse modo, isso é muito problemático, porque pode trazer consequências negativas para indivíduos que não fizeram nada errado, e para o Estado. No caso em questão, por exemplo, familiares dos blogueiros que foram para a festa poderiam contrair a doença por intermédio dos mesmos, sobrecarregando ainda mais a rede pública de saúde.

Sob esse viés, também na pandemia de Covid-19, outro caso ganhou notoriedade: o Governo Federal cedeu seiscentos reais para cidadãos de baixa renda, que tiveram a dificuldade financeira agravada. Entretanto, mais de 70 mil militares, que não se enquadram nessa situação receberam o dinheiro, segundo o Ministério da Defesa. Após órgãos públicos intimidarem os fraudadores, muitos devolveram a quantia, o que mostra que a ausência de punições incentiva novos casos de infrações, visto que, senão a moral individual, não há motivo para se privar de algo bom, mesmo que seja incorreto. Por conseguinte, ações envolvendo desvio de dinheiro público, prejudicam diretamente a qualidade de vida de muitos cidadãos, que dependem dele para a construção e manutenção de escolas, hospitais e transporte público, ou seja, para a garantia de seus direitos.

Portanto, para mudar essa realidade, é preciso que o Poder Legislativo, por meio de leis, aperfeiçoe as punições dos crimes, tornando o tempo na prisão mais proporcional ao malefício que ele causou a médio e longo prazo na sociedade. Assim, as pessoas terão mais medo de cometer delitos, diminuindo a quantidade de casos. Além disso, é necessário que as escolas invistam mais tempo da grade horária em aulas de inteligência emocional, a fim de tornar os futuros cidadãos mais críticos e empáticos que as gerações anteriores, que repudiarão, com maior frequência, essas maneiras de agir.