A linguagem neutra em debate no Brasil
Enviada em 24/05/2022
A série de televisão brasileira “Todxs nós” retrata a trama da protagonista Rafa, que fugiu de casa pela razão de que os seus pais não compreendiam a sua forma de ser, sendo esta: não binária. Nesse sentido, o fato da personagem não identificar-se em nenhum dos gêneros masculino e feminino, requeria o uso da linguagem neutra, o que não foi aceito pelo seu núcleo familiar. Não distante da ficção, nos dias atuais, indivíduos com identidades de gêneros fora dos contextos do binarismo e cissexismo encontram dificuldades em sua inclusão no discurso oral e escrito, de maneira a não sentir-se representadas. Por isso, é importante discutir sobre a linguagem e o uso do pronome neutro na Língua Portuguesa, assim como sua implicação política. Em primeiro lugar, é válido refletir sobre o papel da linguagem e a sua adaptação ao longo do tempo histórico, levando em consideração que ela é orientada por uma visão de mundo e pela realidade em que cada interlocutor se encontra. Relacionado a isso, pode-se citar uma fala do autor Júlio Cortázar: “O empreendimento da palavra é se lançar sobre novas realidades”, demonstrando que as línguas se adaptam conforme as demandas e transformações sociais. Desse modo, sabendo-se que o uso de apenas os pronomes masculino e feminino já não diz respeito à realidade atual, a qual conta com diversos gêneros, o implemento do pronome neutro no idioma seria uma adaptação condizente ao contexto brasileiro, favorecendo a expressão da individualidade de toda a sociedade. Além disso, é necessário reconhecer a implicação política que acompanha esse tema, já que a língua é uma forma de marginalização de pessoas não-binárias e intersexo. Sob esse aspecto, pode-se afirmar que a língua em pauta não oferece alternativas neutras para quando se usa pronomes pessoais na terceira pessoa. Isso se exemplifica no cotidiano a partir do uso do masculino genérico, assim como na seguinte situação exemplo: se houver, em uma platéia, um conjunto de 999.999 mulheres e pessoas não binárias e apenas 1 homem, todas as 100.000 pessoas seriam referidas pelo pronome masculino, o que enfatiza a violência de gênero existente.
Portanto, é mister que o Estado tome providências em função de melhorar o quadro atual. Para que a exclusão de pessoas não binárias e intersexo seja eliminada, urge que o ministério da educação faça palestras.