A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão
Enviada em 15/03/2020
Em sua obra “Amor líquido”, Bauman descreve o funcionamento das bolhas identitárias virtuais, que restringem o pensamento das pessoas e as induzem a crer que suas ideias são verdades absolutas. Dessa maneira, a internet, mesmo disponibilizando um vasto acesso informacional aos seus usuários, é uma ferramenta elementar para que esse processo de alienação se efetive. Assim, os principais efeitos dessa situação são os crescimentos de extremismos ideológicos e do individualismo em escala global.
No tocante às redes digitais, o uso irrestrito delas, desprovido de consciência, faz com que o ser passe a acreditar facilmente em quase tudo o que vê como semelhante aos seus ideais, ainda que o objeto de análise seja uma mera falsificação da realidade, como as tão propagadas “fake news”. Dessa forma, a construção de pensamentos radicais é amplamente facilitada e, por isso, se torna cada vez mais comum. Nesse contexto, um grande exemplo para a compreensão da problemática foi o que ocorreu durante o Nazismo, período no qual o governo manipulava propagandas para exaltar um líder político de pensamentos extremistas e, assim, exercer um controle ideológico sobre as massas. Posto isso, o resultado dessa dinâmica se mostra como deveras perigoso, gerando na sociedade uma crescente intolerância sobre diferentes características individuais, o que ameaça diretamente os direitos humanos.
Ademais, o ato de aceitar informações sem a existência de um debate pode ocasionar a exaltação da individualidade, tornando o homem um animal menos empático e, dessa forma, no viés emocional, menos humano. Dado isso, se Aristóteles uma vez disse que “O homem aspira ao saber”, tal desejo, em relação à dialética, parece ter se diluído na liquidez moderna. Com isso, as pessoas tendem a se tornar meras cumpridoras de ordens e a se contentar com seus ínfimos conhecimentos adquiridos, sem conseguir observar perspectivas diferentes das suas e submetendo seus semelhantes a situações degradantes.
Portanto, a carência de reflexões indagativas gerada pelos dispositivos tecnológicos é um problema que precisa ser mitigado. Para tanto, o Estado deve promover campanhas publicitárias acerca do uso consciente das redes sociais, como o Instagram, por meio dos aparatos midiáticos, a fim de alertar sobre a existência de algoritmos que restringem os conteúdos visualizados por cada usuário, proporcionando um debate crítico acerca da manipulação ideológica que pode ocorrer com o consumidor desses artifícios virtuais. Ainda, as Escolas devem promover palestras sobre a pertinência da empatia no convívio social, para que os alunos, desde cedo, compreendam que a percepção de outras visões de mundo é essencial para a efetiva humanização das pessoas inseridas numa hodiernidade tão robotizada. Nesse sentido, aplicando tais medidas, o amor líquido descrito por Bauman se solidificará, estreitando os laços interpessoais da atualidade e impulsionando a inquietude do raciocínio.