A importância de valorizar a população indígena
Enviada em 25/08/2020
No livro “O Guarani”, de José de Alencar, o personagem principal, Peri, é um indígena estereotipado pelo Romantismo, com traços europeizados, selvagem e com instinto heroico. De maneira análoga, a sociedade brasileira, até os dias hodiernos, possui uma visão distorcida dos povos indígenas, vendo-os, muitas vezes, como figuras mitológicas e não compreendendo a importância da valorização dessa população. No entanto, tal percepção só irá mudar com o embate a essa alienação cultural estabelecida socialmente e, também, à ineficiência governamental, que não busca mecanismos legislativos de resolução para problemas seculares.
Em primeira análise, tamanha alienação cultural é reforçada pelos meios midiáticos que não buscam uma representatividade positiva e real da vivência indígena, perdurando, por séculos, em apresentar a velha imagem do “bom selvagem”. Relacionado a isso, consoante o filósofo moderno Pierre Bourdieu, “o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão”. Dessa forma, a mídia, que deveria trazer informação e crescimento democrático, é uma das responsáveis pela figura deturpada que a sociedade possui desses povos e cabe a ela reparar esse dano.
Outrossim, outra questão em aberto que desvaloriza a figura indígena é a indiferença por parte Estatal sobre a lacuna legislativa direcionada aos direitos dessa população. De modo que, de acordo com o artigo 5º da Constituição de 1988, todos têm direito à segurança e à moradia. No entanto, os crescentes números de violência discriminatória e a luta constante para a demarcação e preservação das terras indígenas mostram que o Estado não faz jus ao que está escrito e garantido na Constituição Cidadã, fazendo com que toda uma população seja marginalizada cada dia mais.
Portanto, medidas devem ser tomadas para solucionar essa desvalorização indígena. Para isso, a mídia deve, através de adaptações reestruturadas de obras clássicas do romantismo indianista, reformular a imagem construída erroneamente durante séculos - visto que a mídia tem papel fundamental no pensamento social - a fim de promover consciência da diversidade cultural e da realidade vivida por esses povos para a sociedade. Já ao Estado, por meio do Ministério da Cidadania e da FUNAI, cabe a efetivação da proteção dos indígenas e de suas terras - trazendo à tona a releitura de projetos engavetados sobre a demarcação de terras indígenas e buscando também novas alternativas que garantam segurança a essa população distanciada sociopoliticamente - para que toda a pirâmide social brasileira entenda que o indígena não é, nem nunca foi, igual à imagem distorcida retratada pelo autor José de Alencar.