A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 09/10/2021

Segundo o filantropo Benjamin Franklin, “o trabalho dignifica o homem”. Tal frase refere-se também a prática de trabalho voluntário, a qual atualmente apresenta-se desvalorizada no Brasil. Desse modo, pode-se considerar essa realidade como reflexo da falta de conhecimento acerca dos benefícios proporcionados por essa modalidade de prestação de serviços e pela manutenção de uma mentalidade capitalista, que associa o trabalho ao lucro.

Em primeira análise, é importante ressaltar as contribuições promovidas pelo trabalho voluntário. O filósofo alemão Hegel, em seus estudos, refletiu acerca da importância dessa prática na formação do indivíduo, destacando o fato de ela ser capaz de “educar a consciência do homem, causando a sua libertação”. Ou seja, trabalhar voluntariamente acrescenta valores e pode moldar um cidadão consciente, liberto de todas as amarras sociais, já que promove o autoconhecimento e a empatia com as necessidades do próximo, sem necessariamente esperar benefícios materiais em troca. Contudo, a escassez de disseminação dessas informações mantém as pessoas ignorantes e desinteressadas acerca do assunto, levando à permanência da desvalorização do voluntariado.

Ademais, a persistência de um pensamento que associa o trabalho necessariamente ao lucro corrobora o agravamento do impasse. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, a sociedade vive atualmente na chamada “modernidade líquida”, na qual há queda de atitudes éticas, por conta da fluidez de valores, a fim de atender aos interesses pessoais. Tal ponto de vista adequa-se à realidade da desvalorização do trabalho voluntário, pois grande parte da população brasileira ainda possui a mentalidade capitalista, marcada pela busca do lucro, não considerando os demais benefícios conquistados a partir do voluntariado, os quais estão relacionados essencialmente à busca do bem-estar social - e não apenas do individual. Como consequência da manutenção dessa concepção, índices como o da pesquisa realizada pelo IBGE, na qual é apresentado que apenas 4,3% do povo está envolvido em alguma atividade voluntária, continuarão sendo uma realidade cada vez mais frequente no país.

Logo, ações para o combate dessa desvalorização são essenciais. Portanto, o Ministério do Trabalho deverá instaurar, nas principais empresas estatais, projetos voltados ao voluntariado, por meio dos quais cada funcionário será encorajado a se envolver em ao menos um tipo de serviço voluntário, de acordo com suas preferências, a partir da apresentação dos benefícios advindos de tal atividade, com o intuito de assegurar o fortalecimento dessa prática e consequentemente, o desenvolvimento de uma mentalidade menos capitalista. Assim, a frase de Benjamin Franklin poderá representar, efetivamente, o papel do trabalho na sociedade brasileira.