A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 08/09/2021

O Brasil, que desde o início da colonização estava consolidado como um país predominantemente agrário, inicia a partir da década de 1930 um processo forçado de transição produtiva para o modelo industrial. Assim, tal projeto desenvolvimentista, iniciado de forma tardia em relação ao contexto internacional e promovido de forma acelerada para o cenário brasileiro, deixou um legado estrutural e cultural intrinsicamente relacionado à recente problemática a respeito da mobilidade urbana: uma infraestrutura inadequada ao atual contingente urbano e um ideário popular favorável ao rodoviarismo.

Em primeiro plano, deve-se salientar que a adoção hegemônica do modal rodoviário no início da industrialização é a causa primária da problemática. Tal inferência pode ser atestada ao analisar o projeto industrial empreendido pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek na década de 1950, que apresentava como um dos pilares a construção de todo o aparato necessário para a consolidação da infraestrutura rodoviária. Por conseguinte, a predominância de um único modal de transporte no âmbito urbano - significativamente saturado decorrente da grande densidade populacional nessas localidades, projetadas para satisfazer volumes populacionais das décadas passadas - dificulta o deslocamento entre pontos da cidade.

Outrossim, a herança do nacional-desenvolvimentismo nos padrões de consumo populares agrava o esgotamento do rodoviarismo. Dessa forma, antes é relevante destacar o pensamento dos sociólogos Adorno e Horkheimer, que em “Dialética do Esclarecimento” afirmam que a indústria utiliza dos meios de comunicação de massa para moldar o comportamento popular, estabelecendo padrões de consumo. Sob essa ótica, é possível inferir que a alta recorrência de publicidades que propagandeavam automóveis na década de 50, com o objetivo de formar um mercado para a indústria automobilística que se instalava, contribuiu para a formação de um desejo coletivo ainda vigente de aquisição individual de veículos, o que corrobora para o alto número de carros circulantes e acentuação da crise urbana.

Infere-se, portanto, que para viabilizar a mobilidade urbana é necessário o emprego da intermodalidade e incentivo popular ao uso de outros meios de transporte. Logo, cabe aos governos municipais, visando o aumento da produtividade de sua população, prejudicada pelo lento deslocamento intramunicipal, por meio do aumento da arrecadação de impostos e acordos com o governo federal, a realização de maiores investimentos para a diversificação dos modais de transporte urbano, construindo vias ferroviárias e ciclovias, a fim de oferecer outras opções de transporte no espaço fisicamente saturado por rodovias. Além disso, cabe também aos governos regionais o oferecimento de subsídios fiscais às empresas que estimularem seus trabalhadores a utilizar os novos modais.