A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 15/01/2021
“Era neblina, hoje é poluição / Asfalto quente queima os pé’ no chão / Carros em profusão, confusão”. Estes são os versos que compõem a música “Passarinhos”, do rapper Emicida, que meditam, ao longo da canção, acerca da problemática relacionada à mobilidade urbana no Brasil. Nesse sentido, o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Brasileira de 1988, é violado em função da péssima estruturação das cidades no que diz respeito ao deslocamento de massas e traz como consequência a precariedade do sistema de transporte público.
A priori, é necessário observar que os desafios da mobilidade urbana estão alicerçados na estrutura das cidades. Dessa forma, é inquestionável que a questão governamental esteja entre as razões da persis-tência de tal problemática. Paralelamente, ainda no período da Grécia Antiga, Aristóteles falava que a polí-tica deveria ser utilizada de modo a assegurar o bem-estar dos cidadãos. Entretanto, o que pode se ob-servar é que a realidade não vai de encontro ao pensamento do filósofo, haja vista que as cidades foram construídas sob uma ótica de “Carrocracia", ou seja, de modo a favorecer o transporte individual, como carros e motos, em detrimento do coletivo, como ônibus.
Consequentemente, a falha no planejamento urbano incentiva a concentração de veículos particulares em desfavor da prosperidade do sistema de transporte público. Assim, um ônibus que poderia comportar cerca de 42 passageiros ocupando um espaço de 3 a 4 carros, é substituído por 1 carro com, em média, 2 passageiros. Em consoante a isso, é possível observar um efeito “bola de neve”, visto que o aumento do fluxo de carros provoca uma diminuição no fluxo de ônibus. Essa relação, por sua vez, é comprovada pela pesquisa realizada pelo IBOPE que demonstra que cerca de 83% dos entrevistados deixariam de utilizar seus automóveis se o transporte público estivesse de acordo com as suas expectativas.
Destarte, fica evidente a importância da eficiência da mobilidade urbana para a construção de uma socie-dade gozadora de seus direitos. Nesse âmbito, cabe ao Ministério da Infraestrutura, por meio de parceri-as com empresas do ramo de transportes públicos, promover, simultaneamente, medidas como o investi-mento no translado coletivo e as cobranças de pedágios em áreas com maiores fluxos de automóveis particulares, a fim de desincentivar o uso de carros e motos enquanto melhora-se a qualidade dos meios públicos de locomoção. Desse modo, o cidadão brasileiro poderá atingir a plenitude da essência aristoté-lica de modo a não mais representar o cenário ilustrado pelo Emicida.