A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 07/12/2020

A Constituição brasileira de 1988 assegura a todos os indivíduos o direito de ir e vir. No entanto, na prática, tal garantia é deturpada, visto que a  mobilidade urbana não se encontra efetivada na sociedade nacional. Esse cenário nefasto ocorre não só em razão do rápido crescimento das cidades, mas também devido à má influência midiática". Logo, faz-se imperiosa a análise dessa conjuntura, com o intuito de mitigar os entraves para a consolidação dos direitos constitucionais.

Em primeira análise, vale ressaltar que o crescimento urbano desordenado gerou a concentração dos  comércios em determinadas setores da cidade, o que excluiu, principalmente, os locais pouco evidenciados pelo mercado empresarial. Nessa linha de raciocínio, o geógrafo Milton Santos atribuiu ao inchaço urbano desenfreado o surgimento de processos como a Gentrificação, a qual “expulsa” a os indivíduos da sua moradia. Nessa perspectiva, esse fenômeno provoca o afastamento dos indivíduos dos grandes centros urbanos, o que os deixa ainda mais distantes, e, consequentemente, colabora para o congestionamento e dificuldades na mobilidade urbana. Logo, infere-se que a expansão citadina proporciona a perpetuação deste imbróglio.

Ademais, é imperativo pontuar que a mídia contribui para a “cultura do carro” . Acerca disso, os filósofos Adorno e Horkheimer, em seus estudos sobre a Indústria Cultural, afirmaram que os meios de comunicação em massa se tornaram instrumentos de manipulação, tendo finalidades prioritariamente lucrativas. Sob esse prisma, os anúncios comerciais buscam envolver o consumidor em direção à compra do veículo anunciado, transmitindo a sensação de “status”. Nesse sentido, o usuário, sem perceber, é induzido a comprar automóveis, devido a um “bombardeio” de comerciais que aparecem nas redes. Diante disso, o excesso de propagandas dificultam a resolução deste impasse.

É necessário, portanto, que medidas sejam tomadas para melhorar a mobilidade urbana da população. Dessa forma, cabe ao Congresso Nacional, formular leis que limitem esse assédio comercial realizado por empresas privadas, por meio de direitos e punições aos que descumprirem, a fim de acabar com essa imposição midiática. Paralelamente, o Ministério da Educação deve levar o tema às escolas públicas e privadas. Isso deve ocorrer por meio da substituição de parte da carga teórica da Base Nacional Comum Curricular por projetos interdisciplinares que orientem sobre a locomoção urbana, para que se desperte o interesse do aluno pelo tema ao mesmo tempo em que se desenvolve sua consciência cultural e cidadã. Assim, tornar-se-á possível a construção de uma sociedade permeada pela efetivação dos elementos elencados pela Carta Magna.