A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 15/08/2020

O livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, tem início com o protagonista e a perda do seu lar, quando um extraterrestre poderoso anuncia a construção de uma via expressa e a destruição do planeta Terra, que está atrapalhando as obras. Apesar de se tratar de ficção-científica, o autor narra uma cena comum nas grandes cidades brasileiras, onde intermináveis aberturas de espaço para a passagem de automóveis refletem a crise na mobilidade urbana, devido ao grande número de carros. Assim, é importante discutir as causas e as consequências desse problema.

A princípio, o empresário Elon Musk propõe que o aumento da frota de carros elétricos possa servir como solução para alguns problemas causados pela crise na mobilidade urbana. Entretanto, apesar de parecer uma alternativa viável em países com suporte para tal medida, a problemática não será superada se o carro ainda for visto como produto desejável de consumo, com seu objetivo desvirtuado, uma vez que é predominantemente utilizado não para transporte, mas para segregação social. Então, a desassociação do automóvel como objeto de poder talvez seja mais eficiente na solução da crescente crise na mobilidade urbana, em vez apenas da transmutação do causador do problema.

Além disso, o Princípio da Responsabilidade, proposto pelo filósofo Hans Jonas, expõe a relação de dependência das futuras gerações em relação às atuais, ou seja, cabe à sociedade presente preservar o meio ambiente, a fim de garantir maior qualidade de vida aos seus descendentes. Porém, isso não é visto nas atitudes a respeito da mobilidade urbana, na qual o crescente número de automóveis embaraça cada vez mais o tráfego nas grandes cidades e tem como consequências o aumento dos impactos ambientais – como chuva ácida, poluição atmosférica, inversão térmica, perda da biodiversidade etc. – e a diminuição da qualidade de vida, com a intensificação de doenças respiratórias. Logo, justifica-se a urgência de soluções que interrompam essa problemática.

Portanto, é dever do Estado incentivar o uso dos transportes públicos – como ônibus e metrôs –, por meio de investimentos que visem aumentar a sua qualidade, segurança e acessibilidade, e o uso de transportes não poluidores – como bicicletas e patinetes elétricos –, por meio da expansão da malha cicloviária nas cidades brasileiras, para que não só a crise na mobilidade urbana seja diminuída, mas também que a boa qualidade de vida dos cidadãos e do meio ambiente seja garantida, junto com a desconstrução do pensamento de que a posse um carro é algo totalmente positivo. Com isso, não será mais preciso continuar destruindo o planeta Terra para a construção de vias expressas.