A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 28/06/2020

O conto “A Autoestrada do Sul”, redigido em 1964 pelo escritor Júlio Cortázar, descreve um congestionamento envolvendo veículos na estrada de Paris que perdura por anos. De maneira análoga, tal crítica à precariedade da mobilidade urbana é ainda, infelizmente, um quadro atual no cotidiano dos brasileiros. Dessa maneira, tal crise tem como principais vertentes tanto a popularização dos automóveis individuais, quanto da precariedade dos transportes públicos. Logo, é mister a análise das causas que tornam tais impasses possíveis, a fim de solucioná-los.

Em primeira óptica, é válido ressaltar o elevado consumismo, em especial dos automóveis individuais, sendo sinônimo de status. Nesse viés, Zygmunt Bauman, ao analisar a contemporaneidade, explicita o ritmo vertigioso de renovação dos produtos, que corrobora na necessidade de consumir para se incluir e se adequar a um grupo social. Assim, a popularização dos automóveis tem como base a faceta ideológica de superioridade social de quem possui um veículo próprio, contribuindo para o inchaço urbano e, consequentemente, no crescimento da crise da locomobilidade.

Sob outro prisma, é fato que o baixíssimo direcionamento de investimentos para o setor de transporte público resulta em sua ineficiência e desvalorização. Concomitantemente, cabe destacar a Lei Orçamentária Anual, de 2019, que viabilizou apenas 0,01% da receita anual para os projetos destinados à mobilidade. Mediante o exposto, a plurarização dos transportes coletivos e a manutenção desses torna-se escassa para atender à demanda, favorecendo a busca pelo transporte individual.

Infere-se, portanto, que medidas sejam tomadas a fim de melhorar e garantir uma mobilidade urbana acessível. Logo, cabe ao Ministério de Desenvolvimento Regional (MDR),por meio de políticas públicas, orientar e coordenar investimentos aos municípios, com enfoque na melhoria da mobilidade urbana, priorizando o investimento ao transporte coletivo, modernizando-o e garantindo seu acesso à toda a população. Ademais, ao privilegiar o transporte público, tornará favorável as restrições ao uso do automóvel, alterando a visão mercantilista utilizada para sustentar seu uso. Assim, o cenário caótico da mobilidade urbana manter-se-á no conto de Cortázar.