A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 22/10/2019

Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições dos quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca da crescente crise na mobilidade urbana brasileira, é nítida a influência de diversos atores sociais sobre essa construção. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como uma ingerência estatal frente ao transporte público favorece esse problema, mas também analisar seus impactos no organismo social.

A partir dessa problematização, cabe compreender como o Estado ainda se mostra falho na promoção e no incentivo ao uso do transporte público. Nessa perspectiva, atesta-se o olhar de Bourdieu, na medida em que essa instituição se faz presente na construção das peculiaridades sociais, justamente por estar ligada às ações do cotidiano dessas pessoas. Vale salientar, também, como essa deficiência do transporte público catalisa a já  crescente crise na mobilidade urbana, isso ocorre em razão não apenas do estímulo de transportes individuais como fuga àqueles deficitários, mas também pela superlotação dos meios coletivos, como o ônibus e o metro, de modo a acelerar a degradação e a depreciação deste meio já pouco eficaz. Torna-se evidente, portanto, a necessidade do Estado tomar medidas que configurem a mobilidade pública como um ator mais ativo na resolução do problema.

Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno age de maneira a dificultar o combate ao tema. Confirma-se, assim, o viés de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem o fomento capitalista, nesse caso para a compra de carros, ligados a um esteriótipo de poder econômico e de bem-estar, como danoso à livre circulação urbana, isso porque o aumento do número de carros nas ruas determina uma menor fluidez das vias de mobilidade pelos engarrafamentos e congestionamentos. Por conseguinte, a sociedade não apenas configura-se cega, pela analogia do sociólogo, mas também perpetua o problema, confirmando a visão de José Saramago em sua “falsa democracia”, na qual há a ilusão de livre escolha, enquanto esta é regida pelo mercado. Urge, então, a importância da reestipulação de valores sociais para a atenuação do problema.

Entende-se, diante do exposto, a necessidade de medidas serem implantadas para conter o quadro atual. A princípio, é fundamental que as prefeituras de grandes centros, responsáveis pela mobilidade local, em apoio com a Receita Federal, fomente a modernização e o aumento da frota de transportes coletivos, como de ônibus e de metros, pelo aumento do aporte de verba destinado a eles, de modo a favorecê-los e aumentar sua utilização e sua qualidade. Ademais, cabe aos Ministérios da Educação e do Desenvolvimento Social a criação de campanhas publicitárias que desvinculem o carro próprio como algo positivo pela atribuição dos problemas decorrentes desta compra, atenuando o fator mercadológico dessa conquista e favorecendo o uso de transportes coletivos pela população em geral. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.