A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 11/10/2019

No desenho animado ‘‘Os Jetsons’’, uma cidade do futuro, organizada e com muita mobilidade urbana é exibida. Diferentemente da obra ficcional, no Brasil, essa realidade está distante, haja vista a falta de apropriação dos espaços públicos pela sociedade civil e a negligência governamental em regulamentar as condições de habitação.

No que tange à mobilidade urbana, é fundamental pontuar que desde o período colonial, o privado e o público se misturam, como mostrou Sérgio Buarque de Holanda no livro ‘‘As Raízes do Brasil’’. Por isso, os indivíduos não entendem que o espaço público pertence, de fato, a todos. Essa realidade faz com que haja descaso da população civil com os ambientes coletivos, uma vez que, dentro dessa lógica, não pertencem a ninguém e portanto, não são cuidados por ninguém. Consequentemente, serviços públicos como o transporte, em específico, tendem a ser deixados de lado e sucateados pela sociedade civil, enquanto os privados são cada vez mais procurados, como uma maneira de driblar a crise na mobilidade urbana brasileira, originada pelo descaso em questão.

Evidentemente, não só os indivíduos carregam responsabilidade pela mobilidade urbana, mas o poder público também, já que favorece a prática da especulação imobiliária e desrespeita a função social da terra, estabelecida por lei desde a década de 60. Historicamente, os centros das cidades carregam a maior parte da dinâmica urbana e são aproveitados pelo mercado imobiliário, que torna as habitações inacessíveis monetariamente para a população de menor renda, mesmo que estejam abandonados e sem qualquer uso. Por conseguinte, o tráfego de veículos aumenta e a crise na mobilidade urbana é agravada, já que a parcela marginalizada (principal encarregada de abastecer a parte central com serviços) precisa se locomover todos os dias da periferia até o centro.

Nota-se, portanto, que o descaso da sociedade civil com os transportes e a negligência do Estado são ímpar na crise da mobilidade urbana. Diante disso, o Ministério da Educação, responsável por administrar o ensino no país, deve ensinar a importância de valorizar os ambientes coletivos, através da institucionalização de uma matéria específica em todos os níveis escolares, que ensine o papel dos espaços públicos na vida de cada indivíduo. Além disso, o Ministério das Cidades, responsável por ampliar o acesso a moradia, precisa quebrar o ciclo vicioso da especulação imobiliária, agravante da crise na mobilidade urbana. Isso pode ser feito por meio da desapropriação das propriedades privadas que não cumpram a função social da terra e repasse desses espaços para a população que precisa se locomover das periferias até o centro. Com essas duas medidas, é possível fazer com que o indivíduo se aproprie e cuide do espaço público e que a especulação diminua, melhorando, assim, a mobilidade.