A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 08/10/2019

Às vendas da loucura

O personagem Coringa vivido por Heath Ledger no filme “Batman: o Cavaleiro das Trevas”, abandona sua sanidade mental para vislumbrar que o caos e a desordem, adquiridos hereditariamente pela humanidade, atestam uma forma de loucura social oculta. Exterior à ficção, o Brasil também vive essa realidade, tendo em vista que o cenário acomodação da crescente crise da mobilidade urbana para cadeirantes corrobora para um contexto em que, mesmo com toda a obviedade sobre a necessidade de enfrentamento à problemática, o impasse continua invisível a muitos brasileiros.

Por esse ângulo, convém analisar que a insuficiente participação cidadã no combate à questão da crise da mobilidade urbana, ratificada pela ausência de infraestrutura capaz de oferecer mobilidade segura aos cadeirantes e pelo constrangimento desses ao se depararem com transportes públicos que não os atendem com qualidade, asseguram que os brasileiros estão sendo espectadores passivos da problemática. Isso, tocante ao livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, o qual expele a reflexão de que, mesmo que o problema esteja em sua frente, o ser humano está acostumado a não enxergá-lo, possibilita inferir que a sociedade vive em uma espécie de cegueira social relativa à crise da mobilidade urbana, o que fortifica a percepção do Coringa e a indispensabilidade de se habilitar os indivíduos ao exercício ativo da cidadania.

Notabiliza-se, também, que abrangente número de indivíduos possuem informações sobre as formas de amenização da crise da mobilidade urbana, decorrente da falta de infraestrutura e do constrangimento dos cadeirantes, mas não praticam ações em conformidade com esses conhecimentos por conta de tal acomodação relativa ao problema. Essa circunstância, sob a perspectiva de Pedro Calabrez, neurocientista contemporâneo, que assevera que a estrutura cerebral humana condiciona o indivíduo a conservar comportamentos, a não ser que haja um esforço perpétuo e habitual para a superação desses, permite perceber que a questão da mobilidade urbana também está unida à conformização dos maus hábitos sociais.

Perante o exposto, cabe ao MEC (Ministério da Educação), por meio de verbas governamentais, criar uma plataforma online, com neurocientistas e especialistas em comportamento, a fim de habilitar a população a identificar os gatilhos que levam à  falta de infraestrutura urbana e ao constrangimento dos cadeirantes, fazendo com que a cegueira relativa ao problema e a loucura social se tornem explícitas aos cidadãos e essas sejam passíveis de serem solucionadas. Posterior ao esclarecimento, a população será capaz de reivindicar ativamente seus direitos ao Poder Executivo, para que o problema seja atenuado.