A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 22/10/2019
Segundo o sociólogo Émile Durkheim, a sociedade pode ser comparada a um “corpo biológico”, por ser, assim como esse, composta por partes que interagem entre si. Dessa forma, para que esse organismo seja considerado igualitário e coeso, é necessário que todos os direitos dos cidadãos sejam garantidos. Contudo, isso não ocorre no Brasil, pois o básico direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal de 1988, encontra-se ameaçado. Esse preocupante panorama é fruto do individualismo da sociedade contemporânea e da negligência governamental.
Com o avanço das tecnologias da informação e o ritmo acelerado das cidades do século XXI, as pessoas têm se tornado mais individualistas e isoladas. Essa realidade, atrelada ao crescimento econômico vivido nos anos 2000, abriu precedentes para a explosão no número de veículos automotores nas ruas brasileiras, já que esses transportes fornecem tanto o conforto quanto o isolamento desejado. Entretanto, assim como no período em que o Brasil viveu o seu Êxodo Rural, as cidades não estavam preparadas para esse vertiginoso crescimento, o que terminou por produzir a atual crise na mobilidade urbana nacional.
Somado a isso, tem-se a inoperância do Poder Público que, por muito tempo, atuou como catalisador para o que viria a ser, hoje, essa situação. Dito isso, deve-se ter em mente que um dos fatores que propulsionou o avanço econômico que o país viveu foi o incentivo fornecido pelo Governo Nacional à liberação de crédito e a diminuição da incidência de impostos sobre os veículos, sendo o mais conhecido o Imposto sobre Produtos Industrializados , o IPI, com o intuito de facilitar a aquisição desses bens pela população. Em contrapartida, o Estado não criou, nem pôs em prática nenhum plano de acomodação para todo esse novo contingente automobilístico, o que, eventualmente, construiu o inchaço urbano e a dificuldade excessiva de locomoção.
Essa problemática, portanto, deve ser prontamente corrigida, a fim de levar o organismo social à homeostase. Para isso, faz-se vital uma maior e mais enfática atuação do Poder Executivo Federal, em parceria com os Estados e Municípios, elaborando um plano de reestruturação nacional. Tal plano deve ser pensado e estruturado visando a ampliação e melhoria das vias urbanas, através de estudos de pavimentação e engenharia de tráfego, tendo como princípio sua contínua evolução e transformação, para que a liberdade de locomoção, garantida pela “Constituição Cidadã”, seja respeitada e preservada. Dessa maneira, as bases para se atingir a harmonia funcional do “corpo biológico” terão sido alicerçadas.