A contribuição de artes visuais, dança, música e teatro como disciplinas obrigatórias

Enviada em 15/06/2020

O filósofo Friedrich Nietzsche mostra como a Grécia pré-socrática tinha sua educação baseada na leitura dos grandes poetas, na música e na dramaturgia, e que ao expulsar os artistas da “República”, o platonismo teria excluído o corpo e a sensorialidade do rol dos instrumentos para a elevação espiritual. No entanto, o ensino das artes, em suas diferentes áreas, é essencial na escola, pois contribui para a formação de cidadãos plenamente desenvolvidos, aptos a viverem em sociedade e a continuarem se aperfeiçoando no decorrer da vida.

Antes de Nietzsche, Arthur Schopenhauer já era o defensor de uma educação estética. O autor alemão apontava que a saúde psíquica consistiria num equilíbrio entre razão, emoção e sentimento. Entretanto, para ele, o Ocidente, ao supervalorizar a primeira em detrimento das demais, criava uma razão instrumentalizada e potencialmente perigosa. Assim, apenas o trabalho com o corpo e com a sutileza promovida pelas artes seria capaz de dar sentido às ações. Em consonância com essas considerações, é possível perceber que o sistema educacional brasileiro há muito supervaloriza a racionalidade, tanto diretamente, com o grande número de horas-aula tradicionalmente reservadas para as ciências exatas, quanto indiretamente, visto que mesmo as linguagens e as ciência da natureza acabam sendo transfiguradas em fórmulas enciclopédicas e gramaticalizações.

Como exemplo disso, o estudo da Literatura, área das Artes que manteve nas últimas décadas seu prestígio junto à escola, é frequentemente reduzido à memorização de “estilos de época”, o que dificulta a experiência estética do leitor. Em contraposição a essa tendência, é valiosa a recente obrigatoriedade de que as escolas de ensino fundamental passem a trabalhar com artes visuais, música, teatro e dança, pois são disciplinas que promovem a educação dos diferentes canais da percepção, do sensível e do emocional, todos necessários para uma formação humanística integral. No entanto, impõe-se o cuidado de que tais disciplinas sejam efetivadas de forma a realmente trabalharem o senso estético dos discentes, e que não se transformem em meios para mero preenchimento de carga horária.

Para isso, portanto, o Ministério da Educação deveria garantir a qualidade dos futuros docentes, investindo na criação de mais cursos de licenciatura em Artes, nas suas diferentes habilitações, e promovendo o acesso a bens culturais por parte de seus frequentadores. Além disso, o estabelecimento de um número máximo de alunos por turma, na escola, e a oferta de materiais e instalações apropriadas deveriam ser garantidas pelas secretarias estaduais e municipais de Educação. Essas duas medidas, em conjunto, contribuiriam para que as artes visuais, a música, o teatro e a dança envolvessem cada estudante de forma efetiva, cumprindo a função de transformar vidas.