A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 01/09/2021
Pinóquio, um dos clássicos mais famosos da literatura infanto-juvenil, conta a história de um boneco de madeira que ganhou vida graças à bondosa fada azul, tornando-se uma criança ativa na comunidade. Sob essa lógica de ficção, tem-se, analogamente, uma situação inversa, em que crianças são tolhidas da própria subjetividade e comportamento em prol de um fenômeno: medicalização da infância. A partir desse viés, é válido discutir sobre a atual naturalização da prescrição de remédios às crianças, bem como suas principais consequências.
De início, é importante entender a infância como base essencial para a formação de uma vida adulta com valores e relações sociais sólidas, tendo como ponto principal o entendimento da própria subjetividade. Porém, na contemporaneidade, percebe-se que crianças mais agitadas, muitas vezes, recebem o diagnóstico de hiperatividade seguido de uma prescrição excessiva de remédios para “silenciá-las”, afetando, dessa forma, o entendimento da criança em relação ao seu papel na sociedade, pois têm os direitos de expressão em comunidade, extirpados. Isso acontece, devido ao diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade não ter a possibilidade de ser confirmado por exames laboratoriais, tendo como consequência direta a medicação de muitas crianças sem necessidade.
Convém pontuar, ainda, que a racionalidade da ciência conduz a humanidade a querer resolver o problema da inquietação, ou qualquer outro termo relacionado a comportamento, de maneira rápida: patologização e consequente medicalização. Nesse contexto, perde-se a noção da origem do problema, pois ao direcioná-lo apenas para a criança reduz-se o quadro de razões para tal comportamento, como, por exemplo, a estrutura educacional do país, principal via de queixas. Nota-se, portanto, que em vez de mudar a forma de lecionar -a qual, normalmente, gera desmotivação e inquietação no público infantil- há a culpabilização da criança, enquadrando-a em uma patologia comportamental que a impede de aprender. De acordo com o levantamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, houve um aumento de 775% no consumo de medicamentos para hiperatividade entre 2013 e 2012.
Logo, uma mudança real para esse problemático cenário pode e deve ser feita, por meio de ações efetivas do Estado juntamente com o Ministério da Saúde -por ter o papel de manter em segurança a saúde pública, com autonomia financeira para isto- para que haja a promoção de tratamentos alternativos para os jovens, dando prioridade a terapias ocupacionais em oposição a remédios desnecessários. Faz-se importante, também, o investimento na capacitação de profissionais da educação, para que mudem a forma de lecionar em prol de uma maior atenção dos alunos.