A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 28/08/2021
O filósofo francês Michel Foucault, em seu livro “Microfísica do Poder”, aponta que expressões psicológicas são encaradas de formas diferentes conforme a interpretação da sociedade à época, por exemplo, muitas vezes a loucura é um mera atitude transgressora. Assim, as expressões da infância na atualidade, como agitação, são pouco aceitas e logo inibidas por medicamentos, quando na verdade se trata de incompreensão e intolerância por parte da sociedade.
Nesse contexto, em primeira análise, crianças podem ser medicadas pela incompreensão da mentalidade juvenil, uma limitada percepção de saúde. Afinal, a medicina atua com o modelo “biopsicossocial”, a partir da segunda metade do século XX, que engloba caracteristicas mentais, biólogicas e ambientais indo além de uma simples disfunção orgânica merecedora de tratamento medicamentoso. Dessa forma, banalizar o uso de remédios em crianças não condiz com a proposta médica atual, sendo necessário uma maior comprensão da sociedade para lidar com o comportamento infantil. Paralelamente, em segunda análise, essa ignorância é agravada pela intolerância do corpo social.
Nesse viés, Foucault, ainda em Microfísica do poder, afirma que a sociedade impõe comportamentos padronizados pela maioria, e os trangressores devem ser “docilizados” para manter a harmônia na convivência. Sendo assim, a prescrição de psicofármacos na infância remete a uma cruel docilização dos corpos em prol de um pensamento hegemônico intolerante à diversidade, o qual deve ser combatido pelo Estado.
Portanto, é necessário combater essa postura errônea quanto às crianças. Diante disso, é dever dos Ministérios da Educação e da Saúde atuarem em conjunto para aumentar a compreensão da sociedade sobre o agir infantil, a fim de evitar a banalização do uso de drogas. Tal medida será realizada por intermédio de campanhas nacionais acerca da mentalidade dos infantos, com atuação de psicólogos e psiquiatras - em especial, palestrar em escolas com a presença dos pais.