A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 13/08/2021
Conforme o filósofo grego Paracelso, todo remédio é um potencial veneno; o que difere é a dose. Apesar de ter sido proferida há diversos anos, essa frase ilustra uma triste ocorrência do mundo atual, no qual, muitas vezes, a prescrição de psicotrópicos é vista como a saída para quaisquer condutas diferentes na infância, o que transforma medicamentos em meros paliativos. A fim de mitigar essa mazela, é preciso analisar a questão e suas implicações.
Em primeiro lugar, é preciso apontar o equívoco sobre a diferença entre condições neurológicas e atitudes inusuais como forte razão para a problemática. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os dados sobre casos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em menores são incertos: variam entre menos de 1% e quase um terço dos indivíduos. Devido a essa falta de clareza, comportamentos, que poderiam ser facilmente resolvidos com tratamento psicológico adequado, são, comumente, confundidos com patologias. Com isso, atitudes impróprias são tidas como soluções, e fica evidente a necessidade de elucidação.
Por consequência, observa-se a vigência de uma sociedade cegamente adepta à alta medicação. Segundo o sociólogo alemão Max Weber, a coletividade é moldada pelas ações de seus indivíduos - isto é, condutas assumidas por alguns são difundidas, de modo a se tornarem comuns no corpo social. Nesse sentido, ao trivializarem o uso de fármacos para infantos, os responsáveis por esses propagam uma prática inadequada, que, ao invés de ajudar as crianças a conviverem, serve apenas como um atenuante temporário. Desse modo, faz-se crucial um melhor tratamento no tocante a esse ponto.
Portanto, visando à erradicação da banalização da prescrição de psicofármacos na infância, as Secretarias Municipais de Saúde, órgãos responsáveis pela administração da saúde local, devem promover a redução da medicação indevida. Isso deve ser feito por meio da revisão do diagnóstico de transtornos mentais em menores e da inclusão desse tema em lugares de influência, como propagandas e palestras governamentais, de modo a esclarecer a distinção em questão para médicos e responsáveis, e, com isso, propiciar uma convivência saudável às crianças. Assim, o dito por Paracelso pode deixar de se aplicar em tal contexto.