A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 17/07/2021

No documentário “Take Your Pills”, são abordados os impactos de psicofármacos estimulantes em jovens e adultos nos EUA. A dependência, por muita vezes iniciada ainda na infância, tem se tornado um problema de saúde para os estadunidenses, porém, isso é um revés também comum ao Brasil. Os recordes de venda destas medicações ilustram a banalização da “tarja preta”, e, as mazelas advindas dessa popularização não só impedem crianças de serem crianças, como também constrói uma sociedade adicta e insegura. Por isso, combater o abuso desses medicamentos no meio infantil é uma questão de saúde pública e social.

Nesse contexto, o fato do Brasil ser o segundo maior consumidor de Ritalina, remédio controlado para deficit de atenção, é um indício dessa banalização. Esse dado, disponibilizado pela própria fabricante,  preocupa por ser um químico forte e de fácil vício. No entanto, a ampla prescrição desse medicamento para crianças “hiperativas” catalisa a problemática, pois a medicina moderna comprovou a agressividade desses fármacos no metabolismo infantojuvenil, graças aos mecanismos de desenvolvimento naturais típicos dessa faixa etária. Dessa forma, a precoce exposição a esse composto não aparenta considerar o custo-benefício da prática.

De fato, a análise dos riscos proveniente de drogas psicoativas carece de um debate sincero tanto para profissionais da saúde quanto para responsáveis leigos. Isso porque, de acordo com a matéria da BBC Brasil, características como curiosidade e alta atividade, próprio das crianças, por vezes é suprimida por uma visão errônea dos tutores que confundem comportamentos naturais com TDAH (Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade). Esse equívoco, somado ao fácil acesso de receitas via profissionais não especializados na psiquiatria, é o estopim para um mal a longo prazo. Visto que o vício é levado até a vida adulta, e, com o exemplo de “Take Your Pills”, essas pessoas crescem acreditando que não são capazes de estudar ou trabalhar sem estimulantes.  Consecutivamente, não apenas características infantis são suprimidas, mas também a autoestima e a autoconfiança.

Diante dessa realidade, é preciso combater o abuso dos psicofármacos na infância. Para isso ocorrer, o Ministério de Saúde necessita elaborar novas diretrizes nacionais via conselhos multiprofissionais, com psiquiatrias, psicólogos e pedagogos por exemplo, para que seja possível extinguir diagnósticos equivocados e diminuir o amplo consumo de ritalina atual. Além disso, o Ministério da Comunicação deve promover amplas campanhas sobre TDAH e afins – que desmitifique tabus e erros cometidos por tutores em relação a esse tema – por meio da internet e TV aberta com o intuito informar familiares e proteger a infância e desenvolvimento das crianças.